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sábado, 20 de outubro de 2012

Tempos de paz

É de 2009, mas só agora pude ver.
 
Dan Stulbach e Tony Ramos protagonizam texto transposto para o cinema baseado na peça Novas diretrizes em tempos de paz, ganhadora, entre outros, do prêmio Shell. Stulbach é um polonês que chega ao Brasil no término da Segunda Guerra. Tony Ramos é o funcionário do governo encarregado de impedir qualquer ameaça da entrada de subversivos no país, bem no dia da promulgação das novas diretrizes de Getúlio Vargas.
  
Suspeitando de Clausewitz, a condição que o funcionário da imigração Segismundo impõe ao ator polonês, um apaixonado pela língua portuguesa, é de que o faça chorar, comprovando a veracidade de sua história para, assim, conseguir seu visto de entrada.
 
 Tudo isso, só para postar aqui um trecho do filme com o "Monólogo de Segismundo" (filho de um rei polonês aprisionado desde o nascimento), de Calderón de La Barca, encenado de forma belíssima por Stulbach.

 
 


A visceral questão humana, a liberdade! Uma grande homenagem do cinema ao teatro!

Cumps



 



quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Adieu, Marker! Merci beaucoup!

 
O cineasta francês Chris Marker morreu neste domingo (29/07) – dia de seu aniversário – aos 91 anos.
Entre inúmeras obras, em sua maioria documentários, o curta-metragem de ficção científica "La jetée" (1962) o tornou famoso mundialmente e inspirou o filme "Os 12 macacos", dirigido por Terry Gilliam (Monty Python; Brazil, o filme).

Assisti a esse belo trabalho na faculdade e foi como uma aula magna de cinema, fotografia e poesia. É um filme com 28 minutos de duração, composto de imagens fixas e apenas uma cena em movimento. Esse photo-roman em p&b narra a história de um homem sobrevivente da Terceira Guerra Mundial que vive como prisioneiro nos subterrâneos de uma Paris destruída e contaminada com radioatividade. Sem saída, o protagonista submete-se, então, ao experimento de uma viagem no tempo para resgatar certa passagem de sua infância. Mas, como vaticinava o mito grego Édipo, ninguém escapa à mão do destino.

A fotografia, que mantém relação afetiva com as nossas lembranças, foi a escolha do diretor para explorar essa geografia da memória.  E a estética de seus enquadramentos é uma preciosidade. Pura epifania!

Considerado um poeta da imagem, Marker colaborou com vários diretores, entre os quais Alain Resnais (Hiroshima mon amour) e Costa Gavras (Z).

Além de "La jetée", outra obra inesquecível do cineasta é "A.K." (1985), mostrando os bastidores de "Ran", do mestre dos mestres Akira Kurosawa.

Também traduziu os poemas do personagem Paulo Martins de Terra em transe, de Glauber Rocha.
As imagens ao lado são da obra Gatos empoleirados (2004), filme de Marker que retratou os grafites do sorridente felino, animal pelo qual tinha obsessão, que anonimamente invadiram as fachadas e telhados de Paris depois do 11 de setembro.




Ao mesmo tempo, odiava fotos, de si próprio é claro, e sempre que os jornais ou revistas lhe pediam uma para ilustrar a reportagem, enviava o desenho de um gato cujo nome era venerado entre seus fãs: Guillaume-en-Egypte.

Enfim, Marker ou Guillaume são para sempre...

Cumps.

Trilogia Hobbit?


Pois é. Agora é oficial. Peter Jackson vai fazer três filmes para adaptação do primeiro romance de J. R. R. Tolkien, O Hobbit, que precedeu – e explica muito! – O Senhor dos Anéis.

A polêmica consiste em saber se o livro dá tanto pano para manga assim. Afinal, na edição da Martins Fontes, o romance não chega a ter 300 páginas, enquanto O Senhor dos Anéis tem mais de mil, além de trazer muito mais detalhes a cada linha. Não seria o caso, por exemplo, de adaptar as histórias d’O Silmarillion*, para prosseguir as representações tolkienianas na linguagem cinematográfica?

É fato que mesmo com a versão estendida, lançada após as bilheterias, ainda falta muita história e minúcias em O Senhor dos Anéis – sim, eu queria muito ver como seria Tom Bombadil e as Criaturas Tumulares, por exemplo –, mas isso é cinema. Não dá para colocar tudo o que um livro pode trazer na película. Mas nem por isso a sétima arte pode ser considerada um gênero menor, só é diferente. Está aí o próprio Peter Jackson, com sua brilhante adaptação à maior obra de Tolkien, que não me deixa mentir.

Agora, sem querer ofender ninguém, apesar de ter gostado muito d’O Hobbit, não acho que ele seja digno nem de descalçar as sandálias de O Senhor dos Anéis e não carece ser adaptado em três filmes. Em outras palavras: isso cheira a interesses mercadológicos. Mas, longe de mim querer ofender o grande cineasta neozelandês. Sério. Todo respeito e admiração a ele.

Espero que eu – e boa parte dos apreciadores de Tolkien – esteja rotundamente enganada e que me surpreenda. De qualquer forma, não tenho dúvidas de que será uma grande adaptação e espero enxergar Lá e de Volta e Outra Vez com novos olhos.


* Uma coletânea mitológica escrita por Tolkien sem edição final até a sua morte. O livro foi lançado por seu filho, Christopher, em 1977, e traz a narrativa descritiva – incompleta  –  sobre o universo da Terra-Média, que ambienta  O Hobbit e O Senhor dos Anéis.

Imagem: Facebook/Divulgação

quinta-feira, 19 de julho de 2012

O belo Jane Eyre (filme e livro)



Desde que fiquei sabendo da produção do filme até ele chegar às locadoras no Brasil, foram dois looooongos anos. Mas a nova versão de Jane Eyre não decepcionou.

Eu sei, eu sei. Cinema e literatura são artes diferentes e, assim, uma boa adaptação de um livro para o cinema não é necessariamente aquela que se iguala ao livro o máximo possível.

Porém, eu me sinto muito frustrada quando vejo um livro que adoro ser transportado para a telona de maneira que estraga a história original. Depois da tristeza de ter assistido A casa dos espíritos (o filme é muito pobre comparado ao livro) e de nunca ter achado uma boa adaptação do livro favorito da minha adolescência, O Conde de Monte Cristo, eu devia ter desistido. Mas ainda bem que quis ver Jane Eyre.

Esse filme de 2010 traz Mia Wasikowska e Michael Fassbender nos papéis de Jane e Mr. Rochester. Uma descoberta legal é que a bela fotografia foi dirigida pelo brasileiro Adriano Goldman.

O roteiro é muito fiel ao livro e dá gosto assistir para relembrar e para apresentar a história a outras pessoas que não leram e não têm intenção de ler o romance de Charlotte Brontë (infelizmente...).

Uma jovem órfã querendo tomar as rédeas da sua vida, um patrão um tanto grosseiro, uma casa com um segredo assustador. Jane Eyre muitas vezes é vista como a primeira heroína feminista. Ela não ficou esperando um casamento e foi atrás de ser alguém.

Vejam o filme. Mas... um conselho ainda melhor: leiam o livro e depois vejam o filme ;)

Jane Eyre, 2010, dirigido por Cary Fukunaga com roteiro de Moira Buffini, inspirado no romance de Charlote Brontë.

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Literatura italiana


“E quando lhe perguntavam o que fazia ali encostado à parede debaixo do campanário, o patrão ‘Ntoni respondia que esperava a morte, que não queria vir buscá-lo, porque os infelizes têm vida longa.”


Josélia Aguiar, do jornal A Folha de São Paulo, escreveu há alguns dias um texto sobre a literatura italiana que precisamos conhecer mais.

Ela informava que até julho acontecerá uma programação que inclui mesas, poesia, performance e exposição dedicadas à literatura italiana na Casa das Rosas, em São Paulo. Começou no último fim de semana, quando o principal tema foi o poeta Giuseppi Ungaretti.

Citou escritores importantes como Antonio Tabucchi, Italo Calvino e outros autores italianos que são publicados no Brasil.

Senti falta de uma menção a Giovanni Verga (1840-1922), escritor italiano, autor de vários livros, entre eles o mais notável: Os Malavoglia (I Malavoglia), de 1881.

Considerado o maior expoente do movimento chamado Verismo – corrente que foi a versão italiana do naturalismo francês – Verga tinha como um dos pressupostos estéticos a representação da realidade.

Nesse romance, Verga trata do universo de Aci Trezza, pequeno vilarejo de pescadores localizado na Sicília. A narrativa é sobre as experiências da família Toscano, mas conhecida pela alcunha de os Malavoglia (literalmente: os preguiçosos), o que não espelha o real comportamento dos seus membros – che erano tutti buona e brava gente di mare.

Seus personagens lutam pela sobrevivência perante um destino que se impõe implacável. Barcos são destroçados no mar e almas esmagadas em terra. Um romance sem fronteiras temporais ou geográficas e que se vale do uso abundante de provérbios, modos de dizer, epítetos, tendo por base a oralidade siciliana. Certa vez, Verga contou em uma carta que aproveitava a estada à beira-mar para observar de perto “aqueles pescadores e colhê-los vivos como Deus os fez”.

Os Malavoglia seria parte do que se chamou “O ciclo dos vencidos”.

Essa temática nos soa bem familiar quando pensamos nos filmes neorrealistas. E procede.

A relação de Luchino Visconti com a literatura foi sempre intensa e o argumento de A terra treme (1948) baseava-se em Os Malavoglia. A obra de autor italiano com que Visconti mais dialogou foi a de Verga. Aparentemente, o escritor siciliano estaria só na base do roteiro de A terra treme, quando, na verdade, é possível apontar sua presença também em Rocco e seus irmãos e até em O leopardo.

Verga era definido pelos críticos de cinema como o poeta do homem siciliano, "sempre a viver de sofrimento e espera".

Fica a dica.

Cumps.

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Albert Nobbs

Na Irlanda do século 19, mais especificamente em Dublin, uma mulher se passa por homem, há mais de 30 anos, para sobreviver física e financeiramente. Quem lança mão desse artifício é Albert Nobbs, personagem de Glenn Close que vive numa sociedade machista e moralista.

 O filme é baseado no conto "The Singular Life of Albert Nobbs" de George Moore e realizado pelo colombiano Rodrigo García (filho do prêmio Nobel de literatura Gabriel García Márquez). Era um projeto antigo de Glenn Close, que já havia interpretado o personagem numa peça em 1982 e nesse filme participa da produção e do roteiro.

Após essa breve introdução, algumas considerações pessoais.


É um filme irregular, com algumas passagens que poderiam ser aprofundadas e outras de uma ingenuidade indigesta. Mas o que sobressai, e faz valer, é a atuação e caracterização de Glenn Close. Não tanto pelas roupas masculinas e maquiagem, mas sim pelas expressões impecáveis. Ela é um garçom em um hotel frequentado por uma discutível aristocracia. Sua retidão, competência e capacidade de submissão fazem dela um empregado exemplar. Ela é um homem, esquisito, mas um homem. Em uma atuação dolorosamente contida. Convence a ponto de, em uma determinada cena, vestida de mulher parecer um travesti. Tamanha é a interiorização dessa vida inventada.

O filme vale pela excelência de Glenn Close e também pela ótima atuação de Janet McTeer.

Por conta da magistral atuação da atriz nesse tipo de papel, lembrei-me de um outro filme, Jogo Perigoso (1986), com a fantástica Vanessa Redgrave. Drama de um médico e exímio jogador de tênis, que se submete a uma operação de troca de sexo (personagem de Vanessa Redgrave). Depois da cirurgia, passa a jogar tênis profissional feminino com o nome de Renee Richards. Sofre todo o tipo de pressão quando descobrem que não era mulher. Baseado em fatos, Richards foi técnica da tenista Martina Navratilova.

Vanessa Redgrave arrasa na interpretação do médico-tenista. Recomendo muito!

Bom, voltando... Glenn Close concorreu ao Oscar de melhor atriz, e não levou. O que pra mim é um elogio! 


Cumps

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

A árvore da vida







Acabei de ver, com um tanto de atraso, o filme A árvore da vida, do diretor e roteirista Terrence Malick, vencedor da Palma de Ouro de Melhor Filme na última edição do Festival de Cannes.

Ao realizar a tarefa hercúlea de mostrar todo o percurso da origem do universo até os dias de hoje, Malick torna-se maçante e quase didático. As belas imagens que poderiam ser de qualquer documentário da National Geographic ou do Discovery Channel e a própria abordagem do tema não trazem lá muitas novidades, como o fizeram 2011: uma odisseia no espaço, de Stanley Kubrick, ou Koyaanisqatsi, de Godfrey Regio. Foi-me impossível evitar a comparação a esses dois grandes filmes que genuinamente inovaram a forma de fazer cinema.

Em A árvore da vida, o diretor alterna a grandiosidade de um Big Bang e a época dos dinossauros com a pequenez da trajetória humana. Logo no início tem-se uma frase dita por Deus: "Onde estavas quando lancei os fundamentos da Terra?", em resposta a Jó, que questiona por que o justo sofre.

Mas é o homem nessa sua dimensão ínfima que carrega a grande questão que assola a humanidade desde sempre: a consciência da morte. E não só a sua própria, mas também a morte de quem se ama.

Através de suas lentes, Malick mostra a história de uma família suburbana dos anos 50 no Texas, com tradição rígida e fervor religioso. Com o luto por um membro da família, alguns personagens iniciam uma jornada de indagações sobre o sentido da vida e a existência de Deus.

Em um dado momento apresenta-se a dicotomia: a vida como graça (um presente divino, simbolizado pela mãe generosa de sentimentos e altruísta) ou a vida como natureza (só matéria, representada aqui pelo pai competitivo e ambicioso). Pode-se escolher um desses caminhos. O velho maniqueísmo entre o bem e o mal, que levará um dos filhos, já na idade madura, a grandes inquietações.

Ou seja, não são questões novas e acredito que não é necessário ler Santo Agostinho ou Nietzsche para entendê-las. Todos, em algum momento, já se fizeram essas perguntas. De qualquer forma, a religião pode ser um bálsamo aos crédulos, no processo de mitigar as dores.

Na minha opinião, vale assistir ao filme por conta da estonteante fotografia de Emmanuel Lubezki, das boas atuações e angústias que convencem. De resto, pouco acrescenta. Aliás, tantas horas de filme cortadas (no original eram 8 horas rodadas) que o personagem de Sean Penn parece deslocado e sem função.

E já que o assunto é morte, eu não o colocaria como um dos importantes filmes para se ver antes de morrer.

Cumps.
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